Fragmentos de conversas da quarentena

Essa semana recebi a notícia da morte de um conhecido, com quem tive uma convivência mais ou menos próxima na época da universidade — embora não fôssemos pessoalmente próximos, tínhamos muitos amigos em comum. Desde então, venho pensando e refletindo sobre várias coisas (algumas, na verdade, já estavam martelando aqui dentro há algum tempo e só foram potencializadas).

A morte de uma pessoa jovem — especialmente quando faz parte do nosso círculo social de alguma forma — , além de nos deixar consternados, escancara nossa própria fragilidade.

Mesmo em tempos de uma pandemia devastadora como a que estamos vivenciando agora, em que valorizamos mais do que nunca a vida e a saúde — e por mais que possamos nos sensibilizar com a quantidade de pessoas mortas e doentes — , parece que só quando acontece algo concreto perto da gente (ainda que a morte dele não tenha relação com a COVID-19, até onde sei) é que levamos um choque de realidade.

A ilusão do tempo

Enquanto somos jovens, acreditamos piamente que teremos uma vida inteira pela frente ou todo o tempo do mundo para realizar nossos sonhos. Assim, vamos adiando boa parte deles, empurrando com a barriga, até que nos deparamos com a partida repentina de alguém que, supostamente, também teria uma vida inteira pela frente ainda.

Além da dor provocada pela partida em si, pela ausência de um amigo, e da solidarização com a família que perdeu seu ente querido de forma tão precoce e abrupta, morre um pedacinho de nós, da nossa crença em nossa própria imortalidade, por mais que a morte seja a única certeza que possamos ter (embora eu desconfie que, no fundo no fundo, a gente não acredita nela — pelo menos não em nossa própria morte ou daqueles que amamos).

De repente, nos damos conta de que, talvez, não haja tempo hábil para realizar todos aqueles planos que fazemos para o futuro — acho que esse é o maior temor que me assola, desde sempre. Talvez não haja futuro.

Se tem uma coisa que eu tô aprendendo nessa quarentena (sem querer romantizá-la), é a viver um dia de cada vez, o que já pode ser considerado uma vitória para uma pessoa tão ansiosa como eu. Por outro lado, é como se a vida estivesse em suspenso e tudo pudesse ser deixado para depois, para quando tudo isso acabar — o pior é que não fazemos ideia de quando isso vai acontecer, ou se sairemos vivos dessa.

Sonhos e planos adormecidos

Nesse contexto, tenho me questionado sobre sonhos e planos que adiei até aqui e em como eu poderia retomá-los agora, respeitando as orientações de isolamento e distanciamento social, obviamente — estou em casa e permanecerei enquanto eu puder; reconheço em absoluto os meus privilégios.

Uma das coisas que eu sempre desejei mais é ser mãe, mas talvez não seja o melhor momento para isso, né? Outra é viajar o mundo inteiro — não preciso nem discorrer sobre a inviabilidade disso agora. O que me resta, então, é a velha vontade de construir uma carreira com propósito (ainda que o termo esteja consideravelmente desgastado atualmente).

Encontros e desencontros comigo mesma

Embora eu me considere, sem falsa modéstia, uma comunicadora nata, e a escolha pelo Jornalismo tenha sido tão natural para mim, só me encontrei no curso na altura do sexto período — são oito no total e até o quinto eu só pensava em desistir — , quando tive a matéria de jornalismo literário.

Tudo bem que depois eu entendi melhor a importância de algumas “matérias de base”, mas foi no contato com essa vertente jornalística pouco conhecida (pelo menos no Brasil) que descobri o que eu estava fazendo ali, de fato, ou pelo que eu havia ultrapassado os obstáculos e desafios da graduação (tipo milhares de aulas chatas e trabalhos sem pé nem cabeça; quem nunca?) e chegado até ali, mesmo sem saber direito.

Um jornalismo humanizado, que utiliza as técnicas narrativas da literatura — outra grande paixão minha — para contar histórias reais, em profundidade, indo muito além dos factuais — meu terror! — parecia ser tudo o que eu sonhava (e mal sabia).

Nem mesmo o professor pouco querido pela turma (inclusive por mim, pelo menos até aquele momento) me fez gostar menos da matéria. Aliás, não sei se por compartilhar daquele encantamento pelo jornalismo literário — que eu não havia notado da parte dele em nenhuma das matérias ministradas anteriormente pelo mesmo professor — , já comecei a mudar um pouco meu conceito sobre ele a partir dali.

Muitos dos meus colegas poderiam achar (e talvez achem até hoje, até por não terem tido a mesma oportunidade de convivência posterior que eu tive com ele) que eu só podia estar louca, mas eu já percebia uma postura e um olhar diferente dele em relação àquela matéria.

Ainda assim, quando fui fazer meu TCC — que não podia ser voltado para qualquer outra coisa que não o jornalismo literário — , fiz de tudo para fugir dele como orientador, pelo resquício do “trauma” que tínhamos.

Felizmente, não deu, e ele se revelou o melhor orientador que eu podia ter, me proporcionando um suporte excepcional e a distância, já que no último período eu fiquei apenas com o trabalho de conclusão de curso (sem nenhuma matéria pendente) e acabei voltando mais cedo para minha cidade natal.

O drama do TCC

Como havíamos passado por uma greve, tive apenas 4 meses para escrever meu livro-reportagem de perfis (além do referencial teórico), o que se revelou um projeto demasiado ousado pelo tempo que eu tinha para conclui-lo e pelo que me propus a fazer.

Viajei para participar de um workshop e entrevistar as pessoas, além de ter ido a vários lugares diferentes para fazer entrevistas, virei noites, me descabelei. Ainda que na reta final meu orientador tenha me sugerido adiar minha formatura para o semestre seguinte, de modo que pudesse finalizar o projeto com mais calma — eu estava entrando em parafuso , mas a ideia de não conseguir me formar naquele semestre era ainda mais desesperadora para mim — ele não deixou de me dar todo o apoio de que eu precisava para conseguir, finalmente, meu diploma de jornalista, e com louvor — tirei 100 e recebi tantos elogios da banca avaliadora que mal pude acreditar.

Foi como tirar um enorme peso das costas. A partir disso, parecia que meu caminho já estava traçado e se abriria à minha frente. Ledo engano. Passada toda a correria da formatura, eu estava tão exaurida física e mentalmente que só queria descansar. Em um primeiro momento, não conseguia nem pensar em procurar emprego (e em mais nada).

E agora, José?

Meu entusiasmo foi murchando à medida que pesquisava sobre o mercado e não encontrava quase nada a respeito do jornalismo literário. Me parecia que não havia muito espaço ou oportunidades para trabalhar com aquilo que verdadeiramente fazia meus olhos brilharem e meu coração vibrar.

Até encontrei uma única pós que havia naquela área, que fiquei com muita vontade de fazer, mas não tinha condições financeiras para bancá-la e acabei deixando pra lá. Confesso que não fui realmente atrás do que queria, me conformei rapidamente que não daria certo e fui me virando com o que aparecia — quase tudo muito distante não só do meu grande sonho como da minha área de formação de modo geral.

Fui convencida também de que, para talvez-quem-sabe ganhar um espaço ou uma oportunidade de fazer jornalismo literário, eu deveria primeiro fazer um trabalho extraordinário como repórter de factuais (ou exercendo o jornalismo tradicional em alguma redação de jornal, revista ou TV) — o balde de água fria que faltava para eu desistir de buscar esse caminho.

O fato de eu ter voltado para minha cidade natal, no interior de MG, também não ajudava muito em termos de oportunidades profissionais. Assim, fui vender semijoias e fiz (faço até hoje) alguns bicos como maquiadora para, pelo menos, ganhar uns trocados (e exercer um talento/habilidade com que fui agraciada).

Enquanto isso, disparava currículo para todos os lados. Embora estivesse disposta a me mudar para praticamente qualquer capital, eu não tinha um foco muito definido (uma das minhas maiores dificuldades nessa vida, aliás). Fiz entrevistas, cheguei a participar de alguns processos seletivos e trainees e até avancei etapas em alguns, mas nada dava certo, no fim das contas.

Amor e mudanças

Depois de pouco mais de um ano que eu havia formado, fui morar com meu então namorado em Barueri, na região metropolitana de São Paulo. Logo arrumei trabalho em uma agência de publicidade, mas fiquei por pouco tempo. Lá, conheci uma pessoa que me apresentou o marketing multinível da Hinode, e mesmo tendo mil pés atrás com esse tipo de coisa, resolvi tentar (por vários motivos pertinentes àquele momento específico e à situação em que eu estava na época, e não me arrependo).

Aprendi muitas coisas participando de vários e vários treinamentos (sobre negócios, finanças, e também maquiagem e cuidados com a pele), conheci um monte de gente legal e interessante (pode acreditar! rs), passei por diversas situações que me fizeram crescer (outra hora posso contar com mais detalhes), mas depois de um tempo vi que não era mesmo pra mim aquele negócio.

Nos mudamos para BH um ano depois, quando meu marido veio transferido pela empresa em que ele trabalha. Aqui, conheci a Rock Content, me tornando revisora, depois redatora freelancer, antes de ser contratada pela empresa, onde permaneci por 2 anos até que decidi voltar a ser freela em tempo integral.

Do jornalismo para a publicidade, a mudança foi brusca, mais do que eu poderia imaginar. No marketing de conteúdo, digo que encontrei o caminho do meio. Realmente foi uma grande “descoberta” na minha vida profissional, que me fez crescer muito em um curto período de tempo. Mas ainda faltava alguma coisa…

Sobre escolhas e caminhos

Nesse meio tempo, me tornei também uma consultora independente de beleza Mary Kay. Dessa vez, já com a cabeça feita de que não havia o menor interesse da minha parte em “desenvolver carreira” ou me tornar “diretora”. Meu interesse era única e exclusivamente a venda dos produtos, que eu já usava e conhecia a qualidade, para ter uma renda extra trabalhando com algo de que sempre gostei (até por influência da minha mãe): cosméticos e maquiagem.

A partir disso, comecei também a gravar vídeos nos stories do Instagram dando dicas de maquiagem e usando os produtos da marca, inclusive como forma de divulgar e impulsionar minhas vendas, unindo o útil ao agradável. Mas nunca fiquei limitada somente ao campo de maquiagem e beleza, embora sejam assuntos que eu, de fato, curta bastante e entenda um pouquinho.

Gosto muito de compartilhar com as pessoas o que sei ou o que aprendi, e também meus devaneios, reflexões, questionamentos… — e acho fantástico termos tantas ferramentas disponíveis hoje para isso, apesar dos pesares.

Mesmo não tendo exercido a profissão desde que me formei, tenho muito orgulho dela e não deixei de me sentir/considerar jornalista, ainda que eu não esteja atuando na área. E ainda que eu não tenha uma responsabilidade formal estabelecida por um contrato de trabalho, busco seguir as diretrizes do jornalismo, como o compromisso com a verdade, com a utilidade pública (mas também posto umas bostas de vez em quando, vai!), a checagem de dados e de fontes, etc.

Em tempos de tantas fake news, que têm um potencial destruidor muito maior do que possamos imaginar, sigo tentando honrar meu diploma e minha consciência, devolvendo para a sociedade, ainda que informalmente, um pouco do que a graduação em jornalismo em uma universidade pública renomada (UFV, sua linda!) me proporcionou, não só em termos de conhecimento, mas de capacidade de análise crítica, algo que anda tão em falta nos tempos loucos que estamos vivendo.

Tento fazer minha parte compartilhando matérias de fontes confiáveis para combater a desinformação, memes e provocações que incitem a reflexão, e também minhas próprias impressões e interpretações de acordo com minha pequena bagagem, que tento honrar dessa maneira. Confesso que, muitas vezes, fico bem desanimada e desesperançosa, me perguntado se adianta alguma coisa ou se isso faz alguma diferença. Mas também não consigo simplesmente me resignar e me calar.

Sinto-me no direito e no dever de me posicionar, de usar meu espaço virtual para isso. Não tenho a pretensão de mudar a cabeça ou a opinião de ninguém, mas se eu fizer uma pessoa, que seja, parar pra pensar e refletir sobre algo útil, ainda que para discordar de mim, já está valendo.

Na verdade, faço isso também para mostrar aos que pensam parecido comigo que não estão sozinhos(as), quem sabe encorajando outras pessoas a se posicionarem também, deixando de lado o medo de se expor, porque acredito que só assim podemos promover transformações significativas no mundo e na sociedade, elevando o nível dos debates. Acredito que podemos evoluir a partir de pontos de vista diferentes e também de argumentos parecidos com os nossos, mas que ainda não tínhamos elaborado.

O que você faria de graça?

Mas onde quero chegar com tudo isso? Sabe aquela pergunta que nos fazem em testes vocacionais e afins, sobre o que faríamos mesmo de graça ou se o dinheiro não existisse/se a gente não precisasse dele? Eu fiz um monte de workshops, coach, terapia e outras coisas mais buscando essa resposta que, como meu irmão falou um dia, estava bem debaixo do meu nariz. O que eu faria (e faço atualmente sem receber um tostão por isso) é informar as pessoas.

Acredito de verdade que informação de qualidade é um bem precioso, que pode mudar a vida e libertar as pessoas. E isso é algo que eu sempre quis: que o meu trabalho impactasse positivamente a vida dos outros, contribuindo para tornar um mundo um pouquinho melhor, por mais clichê e romântica que essa visão possa ser ou parecer.

Outro dia falei com meu marido que, talvez, uma das coisas que mais me paralisa é o medo de mergulhar em algo e investir meu tempo, minha energia, meus talentos e meu conhecimento e depois descobrir que não valeu a pena ou que não foi para o bem. Além disso, sou movida pelo coração e pelas emoções, então para me satisfazer, mesmo que no âmbito profissional, precisa ser algo que cale fundo na minha alma (sempre quis usar essa expressão).

Desilusões

Nesse momento crítico, às vezes penso que eu gostaria de estar na linha de frente, mesmo que os jornalistas estejam apanhando tanto (no sentido figurado, e agora, também, literal). Sinceramente, não sei se eu teria saúde mental pra isso, mas admiro os que encaram e fico muito triste por essa desvalorização (que tem acontecido também em relação a profissionais e especialistas de várias outras áreas, infelizmente).

Outro ponto que me demove dessa ideia (embora isso possa ser também apenas desculpas que me dou para não tentar) é que os jornalistas que estão a serviço de grandes veículos, principalmente, em geral não têm autonomia para se posicionar ou expressar sua opinião publicamente, mesmo fora do ambiente de trabalho. E eu sinto uma necessidade quase visceral de me expressar livremente.

É ainda mais difícil fazer nossa parte ou nosso trabalho da melhor maneira quando quem nos representa (ou deveria representar, já que foram eleitos para tal) não faz o mínimo. Ou pior: vai na contramão do que deveria ser feito.

Hoje, vejo o quanto essa busca por propósito me levou a lugares inesperados e me trouxe inúmeros aprendizados, que poderão ainda ser aplicados em várias áreas da minha vida. E diante de tudo isso, me vejo impelida a voltar a buscar, pesquisar e estudar sobre o jornalismo literário, para quem sabe encontrar de vez o meu lugar no mundo, antes que seja tarde demais.

P.S. O título se deve ao fato de que, neste texto, tentei condensar várias conversas que tive com amigos e familiares nos últimos dias.

P.P.S. O tamanho do texto já me qualifica para ser a próxima Eliane Brum?

Publicado por Maíra Caixeta

Jornalista por formação e escritora por paixão. Trabalho com marketing de conteúdo, faço "bicos" como maquiadora, amo viajar e comer, então resolvi criar este espaço para compartilhar um pouquinho de tudo isso.

7 comentários em “Fragmentos de conversas da quarentena

  1. Ótima reflexão. Adorei saber um pouco da sua história com o jornalismo. Se tem algo que acredito que você deve concertar seu tempo e energia é em escrever! Com certeza, suas reflexões são válidas e importantes.

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  2. Mah, te ver em cada etapa desse texto e conhecer mais da sua trajetória traz um admiração ainda maior por você. Sua escrita é envolvente, e seu poder de informar é o que te levou tão certamente ao jornalismo. Tenho um orgulho danado de ter pego aquele diploma do seu lado!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Mah, te ver em cada etapa desse texto e conhecer mais da sua trajetória traz um admiração ainda maior por você. Sua escrita é envolvente, e seu poder de informar é o que te levou tão certamente ao jornalismo. Tenho um orgulho danado de ter pego aquele diploma do seu lado!

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  4. Ei, Maíra! Gostei muito de ler o seu texto. Acho que você está no caminho na literatura jornalística, pois mesmo sendo um texto grande eu me envolvi tanto no seu modo de escrever e realmente pareceu uma conversa, até nossa no sofá da sua sala 🙂
    Sucesso par a esse blog/site e força, amiga! Os tempos são sombrios e uma profissão dessa não pode ser desperdiçada. Beijão!

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  5. Amei dedicar esses minutos a conhecer detalhes da sua história e confirmar como você tem poder pela escrita! Admiro muito sua paixão pela informação autêntica e já sei que devo gostar do jornalismo literário, só de te ouvir falar dele! Vá em frente, Maíra! Desejo que seus passos te levem exatamente ao lugar onde está seu coração e sua realização! Me sinto muito privilegiada em poder contar com suas reflexões no dia a dia! Me ajudam a pensar com mais profundidade e encontrar respostas que nunca imaginei!

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  6. Sis, inacreditável vc ter conseguido colocar “sua vida” condensada nesse texto. Sem dúvidas é sim esse o seu maior dom. Parabéns pela lucidez e por transmitir um “sentimento bom”, num momento em que a gente só lê “finais tristes” .. um beijo grande !

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