Pelas ruas do Prado

Por falta de grana (e de ânimo também, confesso) para fazer academia, acabei ficando um bom tempo completamente sedentária. Trabalhando de casa (faço freelas de produção de conteúdo), essa situação só se agravou. Às vezes, passava dias e dias sem sequer colocar os pés na rua.

Meu condicionamento físico, que já não era dos melhores, foi ficando cada vez mais limitado. Ficava ofegante ao subir um ou dois lances de escada. Também nunca gostei muito de andar. Sou do tipo que tem preguiça de ir à padaria da esquina a pé. Então, você pode deduzir que fazer caminhadas pelo bairro não era uma ideia lá muito atraente para minha pessoa.

No entanto, eu também não estava aguentando mais ficar só enfurnada dentro de um apartamento, trabalhando o dia todo sentada em frente ao notebook escrevendo e/ou revisando textos — embora eu goste bastante de fazer isso. Mas comecei a sentir necessidade de “ver a cara da rua”, de sair para respirar um pouco e mexer o meu corpo, por menos vontade de fazer atividade física que eu tivesse naquele momento.

Vendo exemplos de pessoas que admiro, com um estilo de vida e de trabalho parecidos com o meu (Bruno Padilha e Matheus de Souza), resolvi tentar também: um dia, logo após tomar café da manhã com meu marido e ele sair para trabalhar, resolvi calçar o tênis, colocar “roupa de academia” e sair andando sem rumo pelas ruas do Prado.

Já tinha feito isso uma vez na Praça da Assembleia, outra na Av. Silva Lobo e mais outra na rua Platina, que são locais próximos da minha casa em que as pessoas costumam correr/caminhar em BH. Mas nada se compara à experiência que tem sido explorar as ruas do meu próprio bairro. Posso apostar que a maioria das pessoas não conhece direito os arredores do lugar onde vive, assim como eu não conhecia, e se surpreenderia, como eu tenho me surpreendido, caso se dispusesse a fazer isso.

O Prado é um bairro antigo e tradicional da capital mineira, que preserva muitas de suas casas  e construções mais antigas. Embora seja famoso pelas inúmeras lojas e confecções de vestuário, ainda é um bairro predominantemente residencial. Por aqui vivem muitas pessoas idosas, algumas das quais passaram sua vida inteira no bairro. Pelas calçadas, há uma quantidade considerável de árvores  — inclusive frutíferas  — e também muitas espécies de flores.

Nos últimos tempos, contudo, vêm sendo construídos muitos prédios novos, mais altos e modernos. Ainda assim, o bairro conserva um ar de interior — o que eu, particularmente, adoro  — como se fosse uma cidade pequena dentro da capital. Mesmo as construções mais novas  apresentam um estilo pitoresco— exceto por alguns edifícios  bonitões que temo que descaracterizem isso —, mantendo a estética singela do bairro.

Procuro sempre fazer caminhos diferentes, passando por ruas que não havia passado antes e fazendo disso quase uma expedição. #muitoaventureiraela Vou contemplando as varandas e os jardins das casas, observando os vizinhos passeando com seus cachorros, pais levando filhos à escola, velhinhos(as) fofinhos(as) tomando sol nas casas de repouso. Aliás, algo que me impressionou foi a quantidade de escolas infantis e de lares de idosos no bairro.

Nessa jornada de exploração do meu “quintal”, também descobri uma feirinha de hortifrúti, que ocorre às quartas na rua, e um centro espírita bem bacana, a que acabei indo algumas vezes depois. Outra coisa que eu adoro são os pés de amora e de pitanga que fui encontrando pelo caminho  — nunca pensei que comeria fruta do pé no meio da rua em plena capital. Enfim, havia um mundo de possibilidades que estava bem debaixo do meu nariz e eu não fazia ideia.

No último dia de férias do meu marido, resolvi levá-lo para percorrer comigo a vizinhança — ele também se surpreendeu e gostou muito do que viu. Fizemos compras de legumes para o almoço na feirinha de rua, mostrei a ele minhas ruas, casas e prédios favoritos no bairro e, por acaso, passamos em frente à escolinha em que ele estudou e à academia onde ele fazia natação, quando morou por essas bandas com a família na infância.

Uma curiosidade sobre o Prado é que a maioria das ruas leva nomes de pedras preciosas: Esmeralda, Safira, Rubi, Turquesa, Turmalina… E, para mim, são como pequenas joias mesmo, que escondem tesouros improváveis, de uma simplicidade cativante.

Minhas andanças, mais do que exercício físico, se tornaram um exercício de observação e de reflexão, além de ser um momento “meu comigo mesma”. Às vezes, fico com vontade de fotografar as coisas belas que vejo nessas caminhadas matinais, mas acredito que minhas (poucas) habilidades com a câmera não seriam suficientes para retratar, de fato, a beleza singular disso tudo.

Até porque não seria possível, de toda forma, captar a brisa da manhã, os sons dos passarinhos (uma das coisas de que mais gosto por aqui), os aromas, os cumprimentos, os gestos, olhares e sorrisos das pessoas que cruzam meu caminho… Sendo assim, resolvi lançar mão da minha habilidade com as palavras, que certamente supera a fotográfica, para tentar transmitir um pouco do encantamento que esse novo hábito tem me proporcionado.

Ativei o “modo turista” no meu dia a dia, o que em tempos de grana curta para viajar, acaba sendo ainda mais oportuno. O próximo passo agora é explorar outros cantos dessa cidade que tanto amo (eita Beagá que sabe ser linda, né?).

Em geral, quando viajamos, ficamos mais abertos, atentos e dispostos a e apreciar a paisagem e as pequenas coisas que encontramos pelo caminho — e que acabam passando despercebidas na correria da rotina. Mas podemos exercitar nosso olhar e experimentar um pouco mais disso em nosso cotidiano, tornando os dias comuns mais interessantes e agradáveis, que tal?

Publicado por Maíra Caixeta

Jornalista por formação e escritora por paixão. Trabalho com marketing de conteúdo, faço "bicos" como maquiadora, amo viajar e comer, então resolvi criar este espaço para compartilhar um pouquinho de tudo isso.

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