Os textos que não escrevi

Como fiquei um “mau tempo” sem escrever com frequência, acabei deixando de relatar algumas coisas, situações — e minhas percepções sobre elas — que eu gostaria muito de ter registrado.

Acredito que a principal tenha sido a conversa que tive com um barqueiro em Guarapari- ES, na virada de 2013 para 2014, durante um passeio com meu então namorado e mais dois casais de amigos nossos com quem passamos o réveillon. Na época, eu estava ainda fazendo meu TCC e não tinha forças para mais nada — só queria saber de descansar por alguns dias na praia. Mas não me perdoo por não ter escrito sobre ele até alguns meses depois, quando já havia me formado e ainda estava com a história fresca na cabeça.

Esse episódio me me marcou tanto que, mesmo não me lembrando mais dos detalhes, nunca tirei isso do cabeça. Se não me engano, o apelido do barqueiro era “Cacau”, e ele tinha uma história de vida fascinante. Pensei na ocasião: “preciso escrever sobre ele”, mas acabei deixando passar e perdendo a chance de compartilhar com outras pessoas o perfil de um homem comum, com uma história de vida extraordinária.

Tenho uma vaga recordação da fisionomia dele. Talvez um dia, se tiver oportunidade de voltar ao litoral capixaba, eu o procure por lá para ouvir novamente sua biografia e contá-la para vocês, se eu tiver a sorte de encontrá-lo. Se não me falha a memória, a história dele envolvia uma travessia de vários dias com a família a partir da região Norte ou Nordeste do país até o Espírito Santo.

Essa é uma das premissas (e dos encantos) do jornalismo literário: dar voz a quem não tem ou protagonismo a figuras anônimas. Há autores(as) consagrados(as) dessa vertente, também chamada de literatura da realidade, que defendem que toda vida, todo ser humano tem algo de interessante/valioso a ser revelado para o mundo, especialmente se o(a) repórter/jornalista/escritor(a) souber investigar/entrevistar/fazer as perguntas certas.

Quando viajei para a Colômbia, na minha lua de mel, em 2017, despertaram em mim sensações e reflexões que também queria muito ter registrado e compartilhado. Só sei, hoje, que voltei de lá com um sentimento de transformação ligado à cultura e ao povo daquele país, mas deixei escorrer pelos dedos (ou pela memória) os motivos específicos ou os acontecimentos que me provocaram aquela sensação — e a chance de compartilhar isso com riqueza de detalhes.

Não seria nada mal também ter a chance de retornar à Colômbia — país que tanto me surpreendeu e me arrebatou — mas nenhuma viagem pode ser igual à outra, ainda que você faça o mesmo roteiro e tente repetir a experiência, afinal já não somos mais os mesmos a cada dia que passa. A paisagem pode estar lá, aparentemente intacta desde a última vez que a contemplei, mas meu olhar certamente já terá mudado, ainda que eu não perceba nitidamente. Uma mesma paisagem pode nos extasiar inúmeras vezes, mas sempre será de maneiras diferentes, mesmo que não reconheçamos no ato.

Sem falar que a experiência completa de uma viagem depende muito de elementos que simplesmente não podem ser controlados e muito menos reproduzidos nas mesmas condições, como as pessoas que encontramos pelo caminho, os imprevistos que, às vezes, rendem momentos inesquecíveis etc.

Enfim, ainda escreverei um post com dicas sobre Cartagena e Bogotá, que foram as cidades por onde passei naquela viagem de lua de mel. Quem sabe, ao escrever, recuperar as fotos e mergulhar de novo naquele universo simbólico do país que superou seus anos mais duros e revelou seu potencial turístico há tão pouco tempo, eu consiga resgatar um pouco daquele sentimento que tentei descrever aqui brevemente. Mas este texto é para me lembrar de não mais adiar tanto ou deixar de escrever sobre essas vivências marcantes que vão formando minha bagagem de vida.

Afinal, para quem gosta e/ou tem habilidade de escrever, esses acontecimentos são como presentes que nos são dados, não para desfrutá-los egoisticamente, mas para compartilhar parte desse encanto sob a perspectiva do nosso olhar com outras pessoas que, talvez, vivenciando a mesma situação, não consigam desvendar a beleza oculta que mora, tantas vezes, no simples ou no (aparentemente) comum.

Publicado por Maíra Caixeta

Jornalista por formação e escritora por paixão. Trabalho com marketing de conteúdo, faço "bicos" como maquiadora, amo viajar e comer, então resolvi criar este espaço para compartilhar um pouquinho de tudo isso.

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