Cada época da história (e cada fase da vida) tem seus encantos e desencantos

“Ah! Na minha época era tudo muito melhor…”
“Mas no meu tempo não tinha isso, ou não era assim ou assado…”

Quem nunca ouviu tais alegações, geralmente em tom de lamento? Para começar, não tem essa de “meu tempo” ou “minha época”. Talvez possamos dizer “na minha infância” ou, ainda, “na minha juventude”, mas SE VOCÊ ESTÁ VIVO(A), “mermão” ou “mermã”, SEU TEMPO É AGORA! Enquanto estivermos com os pés sobre a Terra, cada dia é novo, e devemos viver o hoje da melhor maneira que pudermos.

Com isso, não quero dizer que o passado não importa ou que lembranças não possam ser cultivadas. Nossas memórias, sem dúvida, são parte importante de quem somos e vamos nos tornamos ao longo da vida, formando nossa bagagem de vivências e experiências que acumulamos com o passar dos anos. 

Belas recordações, assim como aprendizados resultantes de más escolhas ou de decisões não muito acertadas ou “caminhos errados” que porventura possamos ter tomado, também podem nos ajudar a seguir com mais leveza e sabedoria, dependendo de como encaramos tudo isso.

Contudo, ficar preso a determinada fase da vida ou a uma época da história em que se tinha a impressão de ser “mais feliz” não me parece uma atitude profícua nem muito inteligente. Não vejo outra maneira de reforçar essa ideia sem lançar mão de um clichê   (bastante verdadeiro, por sinal): o que passou, passou. Não volta mais. Não podemos controlar o tempo, afinal.

À medida que o tempo passa e que feridas do passado vão cicatrizando, tendemos a nos esquecer das dores e só recordar as alegrias de determinado período (ufa, que bom!) — a não ser que tenha acontecido algo muito negativo ou traumático naquele contexto. Assim, criamos a ilusão de que agora está tudo pior do antes.

No aqui e agora, precisamos lidar com a vida acontecendo e em movimento, com todas as suas trivialidades e perrengues cotidianos. São os boletos que vencem, a casa para arrumar, a comida por fazer, aquele problema no trabalho, o(a) filho(a) pequeno(a) doente ou a rebeldia adolescente… 

Depois vem o processo de envelhecimento, com a perda brusca ou gradual da vitalidade, mudanças drásticas na rotina, de repente uma doença ou limitação física outrora inimaginável. Nessas horas pode dar vontade de sair correndo para bem longe e, às vezes, procuramos abrigo em uma vaga lembrança de uma época em que não havia tamanhas perturbações.

Agora pare e pense: será que elas não existiam mesmo ou a gente só se “esqueceu” dos perrengues antigos e se fixou no que havia de bom lá atrás? Podemos não perceber isso tão claramente, mas as preocupações do dia a dia apenas se renovam e acompanham os ciclos da vida

Claro que a tendência é que tenhamos cada vez mais responsabilidades e que elas aumentem de tamanho proporcionalmente ao avanço da idade durante a vida adulta, até chegar ao ponto em que, com sorte, teremos cumprido nossa missão e poderemos curtir a velhice, ainda que com as limitações inerentes desse período.

Cada fase da vida é acompanhada de alegrias e tristezas diferentes — não necessariamente melhores ou piores —, algumas inerentes à nossa própria vida, outras ao período histórico-social em que estamos inseridos.

Em se tratando de aspectos socioculturais, que são os principais motivadores, aliás, dessas “comparações históricas”, também nem sempre é fácil absorver e aprender a lidar com essas mudanças ENQUANTO elas acontecem  —  a pandemia que estamos atravessando no momento é o melhor exemplo que eu poderia dar nesse sentido.

Quando é que poderíamos imaginar, ao estudar sobre a gripe espanhola ou a peste bubônica, por exemplo, que viveríamos algo parecido? Vivenciar acontecimentos históricos in loco realmente é algo muito louco (com o perdão do trocadilho infame). E leva-se um tempo considerável para perceber os efeitos, analisar todos os desdobramentos, etc.

No entanto, essas e outras mudanças também são inevitáveis — muitas vezes, consequência de atos ou omissões individuais e coletivas do passadoe necessárias para a evolução da humanidade. Não adianta ir contra o fluxo da vida, que é sempre caminhar para frente, ainda que em tantos momentos a gente pareça estar, na verdade, retrocedendo ou involuindo (tipo agora?). 

Quem sabe a gente precise mesmo ir de um extremo a outro antes de conseguir chegar a um equilíbrio? E em meio a esse pandemônio, podemos ter a impressão de que está tudo errado, tudo fora de lugar.

“Que músicas são essas que os jovens de hoje curtem?”; “Não se fazem mais artistas/mulheres/insira-aqui-uma-classe-oprimida-pelos-padrões-sociais-vigentes como antigamente!”; “O que acontece que os casamentos hoje em dia não duram nada?”; “Ser gay parece até que virou modinha!” (sem comentários para essa aqui) são só alguns exemplos emblemáticos de impropérios bradados por saudosistas de um passado-perfeito-que-nunca-existiu.

Não me entenda mal. Não estou afirmando que todas as músicas, artistas e casamentos (apenas para citar alguns exemplos) atuais sejam incríveis e maravilhosos — ou necessariamente melhores do que os de outras épocas.

No entanto, há, sim, muita música boa sendo produzida, muitos artistas contemporâneos dignos de admiração e de elogios, muitos casamentos tão ou mais sólidos que os “de antigamente”, porque baseados em uma parceria verdadeira — e não mantidos por “obrigação” ou para manter as aparências, o que explica (em grande parte) o motivo de muitos casamentos das eras passadas terem durado tanto.

Temos, ainda, muito mais gente se aceitando, assumindo a sua orientação sexual sem tantas amarras e encontrando um acolhimento familiar e social impensável em “outros tempos” (ainda que haja muita luta pela frente), o que pode dar a impressão de que agora há muito mais pessoas LGBTQIA+ (como se isso fosse um problema).

A verdade é que orientações sexuais e identidades de gênero (que são coisas diferentes, vale ressaltar) diversas sempre existiram, mas simplesmente não eram compreendidas e muito menos aceitas. Assim, muita gente morria infeliz sem se assumir para não sofrer retaliações — o que infelizmente ainda acontece muito. Contudo, só de isso estar sendo colocado em pauta já é um avanço e abre caminhos para que cada vez mais pessoas possam viver de acordo com o que são e sentem verdadeiramente, em vez daquilo que é imposto como padrão a ser seguido de acordo com o que é social e moralmente aceito ou desejável.

Isso não tem volta — ainda que uma recente e assustadora onda reacionária tenha se abatido sobre o Brasil e o mundo — e também não deveria uma questão de disputa ou de comparação. Os artistas consagrados do passado não deixarão de ser apreciados em detrimento dos novos que vão surgindo e vice-versa. Você pode curtir Belchior e Tiago Iorc ao mesmo tempo, tá tudo bem. (Ou apenas um deles, ou nenhum dos dois). Porém, não é preciso desmerecer um para enaltecer o outro.

Aliás, muitos artistas que se consagraram na história só tiveram seu legado reconhecido depois de mortos, sejam cantores e atores, sejam escritores e pintores. Isso porque, mais uma vez, leva-se um bom tempo para construir um legado e para perceber seus efeitos. E é por isso que também não devemos, simplesmente, descartar tudo o que foi feito antes. O que faz você acreditar que nenhum artista ou nenhuma música atual “presta”? Muitos deles poderão ter seus nomes reconhecidos no futuro, quando você nem estiver mais aqui para ver.

Também não é questão de desmerecer ou desvalorizar as gerações anteriores. De fato, muitas coisas boas e importantes foram construídas ao longo dos séculos — e não acho, tampouco, que deveríamos jogar tudo fora e recomeçar do zero — embora, às vezes, possa parecer que essa seria a única “solução” para o mundo.

Estou apenas defendendo a ideia de que há mudanças que precisam ser feitas e que coisas novas ou novos paradigmas precisam ser criados, não necessariamente para substituir tudo o que veio antes. Existem, por outro lado, padrões e comportamentos que precisam, sim, ser superados.

Por acaso você já ouviu (ou falou) que “agora tudo é racismo/homofobia/mimimi”? Não, nem tudo é. Mas muita coisa que é, sim, passou batida ou despercebida por muito tempo, principalmente para quem não sofre nenhum tipo de preconceito ou de discriminação, seja racial, seja em relação a orientação sexual, identidade de gênero ou classe social. Só que quem sofre, cansou de sofrer calado; as pessoas mais conscientes fizeram coro e não vamos mais ficar quietos só para que quem quer que seja volte a ficar confortável com seus privilégios.

Ninguém nasce desconstruído. A maioria de nós que coexistimos nesse século XXI cresceu em uma sociedade machista, patriarcal, racista e homofóbica. Mas isso não é desculpa, independentemente da “educação” que você tenha tido. Cabe a cada um se empenhar em crescer, aprender e evoluir continuamente. Idade (ou o simples passar dos anos) não traz sabedoria para ninguém. É de responsabilidade de cada um buscá-la deliberadamente, se quiser envelhecer bem.

Também existe a opção de se acomodar, de “não aceitar”, de bater o pé e se recusar a acompanhar e se adaptar às mudanças que ocorrem na sua vida e na sociedade como um todo. Sinto muito mesmo por quem faz essa opção. O mundo não vai deixar de seguir mudando por isso.

Saudosismo e nostalgia não são crime nem pecado, vale ressaltar. Entretanto, tem (ou deveria ter) limite, como tudo na vida (lançando mão aqui de mais um clichê verdadeiro). Não sou ninguém para dar conselhos ou algo do tipo, mas se posso pedir algo, é para que não desperdice o resto de seus dias reclamando “dessa geração”. Há essa tendência de gerações anteriores tentarem diminuir ou desmerecer as seguintes, alegando superioridade em termos de força, inteligência, respeito…  O respeito tem que existir e ele precisa ser mútuo.

Mais uma vez, a idade por si só não lhe garante ser mais digno(a) de respeito (importante também não confundir respeito com subserviência). É possível debater com respeito, discordar com respeito, fazer objeções com respeito e impor respeito mesmo sendo mais jovem que seu interlocutor — e ninguém tem que calar e abaixar a cabeça para outra pessoa simplesmente por ela ser mais nova ou mais velha.

Havia coisas melhores e piores antigamente, há coisas melhores e piores no mundo atual, e muito provavelmente haverá coisas melhores e piores no futuro. Todavia, a única coisa que temos, sempre, independentemente do momento histórico que estivermos vivendo, é o AGORA. E é nele que devemos nos concentrar para fazer o melhor que pudermos com os aprendizados do passado, e construir o futuro — não só para nós como indivíduos ou pensando em nossos descendentes diretos, mas para a sociedade como um todo —, sem nos esquecermos de desfrutar o PRESENTE.

Finalizo, por ora (diante da complexidade do assunto, pode ser que suscite novas reflexões), com uma frase do livro O Ateneu, de Raul Pompeia, que sintetiza muito bem a ideia que busquei desenvolver ao longo deste texto:

“Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.”

Raul Pompeia em “O Ateneu”
[Nota mental: reler este texto quando eu mesma me tornar a adulta ou a senhora que faz esse tipo de reclamação “ah, mas hoje em dia tá tudo do avesso, bom mesmo era quando...”, rs.]

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Processando…
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Publicado por Maíra Caixeta

Jornalista por formação e escritora por paixão. Trabalho com marketing de conteúdo, faço "bicos" como maquiadora, amo viajar e comer, então resolvi criar este espaço para compartilhar um pouquinho de tudo isso.

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